sábado, 28 de março de 2015

Brasília ou sobre uma saudade

Tenho saudade até do seu ar totalmente seco e quente de agosto. Daquela espera ansiosa pelo canto da cigarra que anuncia a chuva. Até mesmo, de sua cor bege e quase sem vida dos meses do meio do ano.
A primeira vez que vi Brasília, da janela do ônibus da nacional expresso, era seis e pouco da manhã. Ainda com o corpo amassado da noite mal dormida, afastei a cortina verde e empoeirada da minha janela e o cerrado surgiu se espalhando, derramando abusadamente bem na frente dos meus olhos. O cerrado é uma galeria de arte. Há espaços minuciosamente deixados em aberto entre uma obra e outra. A curadoria teve o dom e compôs com imensa beleza os ipês, piquizeiros, imburanas, arbustos e a terra seca. Nada é descomunal e desigual. Inexiste uma árvore imensa, embora belas sejam as grandes árvores. Nada ali é exagerado, apenas a ideia de amplitude.
A amplitude é o sem fim.
O cerrado me comoveu e só depois entendi porque. Eu já havia morado nele. Nasci no Vale do Jequitinhonha e fui registrado numa Ilha. Entre um e outro espaço existe o cerrado. Cresci no triângulo mineiro, mas não fiz essa relação no primeiro momento. Apenas fiquei ali entorpecido com aquele amanhecer
Depois foi que juntei uma coisa com a outra.
Demorou vinte anos para que o reencontro ocorresse.  Até os 4 anos era o cerrado o único lugar que conhecia.
Em Frutal havia uma flor que ao se tocar com a mão, se recolhia. Não me lembro o nome, mas acho que era não-me-toque ou dormideira, não sei, mas essa flor é a primeira lembrança que tenho de uma flor. Eu a tocava com o dedo e ela se fechava toda. Mais ou menos como quando passamos os dedos arrastando pelo corpo e curvas da pessoa amada.
Essa florzinha viva que fazia a minha alegria quando criança eu a reecontrei outro dia enquanto caminhava em busca de uma cachoeira.
Aqui é primavera e a primavera, por aqui, tem perfume e pássaros.
É bonito.
Mas, não há nada mais bonito que o cerrado imenso, porque é o meu cerrado imenso.
Tentei até traí-lo, flertando com magnólias e ameixoeiras. Tentei, também, saber os nomes dos pássaros daqui, mas um só consigo lembrar de um nome: Sabiá-laranjeira. Porque era ele quem aparecia na minha janela. Por uns instantes fui feliz, mas só por uns instantes.
Até esse dia do ônibus eu havia deixado passar vinte anos. Agora, deixei passar apenas 6 meses, mas me sinto como no primeiro encontro.
Daria tudo por estar naquele ônibus novamente e ter o inexplicável prazer de puxar a cortina de manhãzinha.
Era para ter escrito sobre Brasília, mas não há como fazer isto sem me perder no cerrado primeiro.


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